Fissuras paralelas às juntas em pisos de concreto: causas e prevenção
Fissuras próximas e paralelas às juntas são problemas que podem aparecer em pisos industriais e pavimentos de concreto. Em geral, seguem a direção da junta serrada ou de construção e, dependendo do tamanho e da localização, podem afetar a durabilidade do piso, a passagem de equipamentos e a transferência de cargas entre as placas.
Elas nem sempre têm a mesma causa. O problema pode estar em um corte pouco profundo, na serragem feita tarde demais ou nas barras de transferência, quando impedem a movimentação que deveria ocorrer na junta. A retração do concreto, a cura, o formato das placas e as condições da base também influenciam o aparecimento dessas fissuras (American Concrete Institute, 2010; The Concrete Society, 2013).
Por isso, antes de escolher um reparo, é importante entender como a fissura surgiu e verificar se a junta está funcionando corretamente.
1. O que são fissuras paralelas às juntas?
São fissuras que aparecem próximas de uma junta e seguem aproximadamente a mesma direção. Podem ocorrer ao lado de juntas serradas, juntas de construção ou de regiões com barras e placas de transferência de carga.

As juntas de retração são feitas para definir onde o concreto deve fissurar. Durante a retração, a placa tende a diminuir de tamanho, mas a base e outros elementos dificultam essa movimentação. Isso gera tensões de tração no concreto. O corte serrado reduz a seção resistente em uma linha definida, favorecendo a formação da fissura logo abaixo dele (Rodrigues; Botacini; Gasparetto, 2006; The Concrete Society, 2013).
Quando o corte não funciona como previsto ou a movimentação da junta é impedida, o concreto pode fissurar ao lado dela, criando uma fissura paralela.
Uma fissura paralela não significa, por si só, que houve erro na serragem ou na instalação das barras. É preciso avaliar o histórico da execução, a fissura e as condições da junta antes de apontar a causa.
2. Por que essas fissuras acontecem?
2.1. Profundidade insuficiente do corte
Para funcionar, a junta serrada precisa criar uma região de menor resistência na placa. Quando o corte é muito raso, essa redução pode não ser suficiente para fazer a fissura surgir no local planejado. O concreto acaba aliviando as tensões em outro ponto, que pode ser próximo e paralelo à junta (The Concrete Society, 2013).
O Technical Report 34 (TR34) apresenta profundidades de corte normalmente entre 25% e 30% da espessura da placa. Esses percentuais não devem ser adotados automaticamente em qualquer piso. É necessário respeitar o projeto, o tipo de equipamento e as características da execução (The Concrete Society, 2013).
Em uma placa com 150 mm de espessura, por exemplo, um corte de 25% tem 37,5 mm de profundidade; com 30%, a profundidade chega a 45 mm.
2.2. Corte realizado fora do momento adequado
Não basta cortar na profundidade correta. O momento da serragem também é fundamental.
Nas primeiras horas depois da concretagem, o concreto passa por mudanças de temperatura e volume, enquanto sua resistência ainda está aumentando. O corte precisa ser feito quando o material já suporta a passagem da serra sem grandes danos nas bordas, mas antes que surjam fissuras fora das juntas. Esse período é chamado de janela de serragem (American Concrete Institute, 2010).
Se a serragem for antecipada, podem ocorrer quebras nas bordas. Se for feita tarde demais, o concreto pode já ter fissurado em outro local. Nessa situação, cortar a junta depois não garante que a fissura existente deixe de se movimentar.
Não existe um horário único de serragem para todas as obras. Ele varia conforme o concreto, a temperatura, as condições do ambiente e a técnica de corte.
2.3. Barras de transferência que impedem a movimentação
As barras de transferência ajudam a transmitir esforços verticais de uma placa para outra. Assim, reduzem a diferença de deslocamento entre os lados da junta quando equipamentos passam sobre ela. Ao mesmo tempo, precisam permitir a abertura e o fechamento da junta quando essa movimentação está prevista no projeto (Rodrigues; Botacini; Gasparetto, 2006).
Barra com saliência na extremidade

Nas juntas com barras cilíndricas lisas, o detalhamento pode prever tratamento para evitar a aderência do aço ao concreto e permitir o deslizamento. Se esse tratamento não for executado corretamente, ou se existir alguma interferência física, a barra pode acabar prendendo uma placa à outra.
Com a retração, o concreto tenta se movimentar, mas encontra essa resistência. As tensões aumentam e podem provocar fissuras paralelas à junta, inclusive perto das extremidades das barras.
Nesse caso, o aspecto da fissura é um indício, não uma confirmação. Para identificar a causa, é necessário conhecer o detalhe previsto e verificar, quando possível, como as barras foram instaladas.
2.4. Barras de transferência desalinhadas
Mesmo com o tratamento adequado para deslizamento, as barras podem causar problemas se estiverem fora da posição prevista.
Em juntas convencionais, as barras cilíndricas lisas precisam estar alinhadas com a direção de movimentação e corretamente posicionadas entre si. Quando ficam inclinadas ou em direções diferentes, podem dificultar a abertura e o fechamento da junta.
Durante a retração, esse travamento gera esforços adicionais no concreto, que podem favorecer fissuras próximas e paralelas à junta. Por isso, o alinhamento das barras e de seus suportes deve ser conferido durante a execução (Federal Highway Administration, 2007).

Em algumas situações, as placas de transferência de carga são uma alternativa às barras cilíndricas. Conforme a geometria e o sistema de instalação, elas podem permitir determinados movimentos com menor risco de travamento. Ainda assim, seu funcionamento depende do dimensionamento, das folgas e da instalação correta.
2.5. Retração, restrições e problemas na base
Além das situações anteriores, outros fatores podem contribuir para o aparecimento de fissuras paralelas:
- Retração elevada e cura inadequada do concreto;
- Atrito excessivo entre a placa e a base;
- Restrições provocadas por pilares, blocos e bases de máquinas;
- Placas com geometria desfavorável ou juntas mal posicionadas;
- Perda de apoio.
Em muitos casos, mais de um fator está presente. Por isso, o projeto das juntas precisa considerar o formato das placas, as movimentações esperadas, os elementos fixos e a transferência de cargas (The Concrete Society, 2013).
3. Como identificar a causa da fissura?
O primeiro passo é observar a fissura e a junta ao lado dela. Vale registrar a distância entre as duas, a abertura, o comprimento e a presença de quebras nas bordas ou diferenças de altura entre as faces da fissura.
Também é importante consultar os registros da obra: quando as juntas foram serradas, qual foi a profundidade dos cortes, como foi realizada a cura e como foram instaladas as barras ou placas de transferência.
Na prática, três perguntas ajudam a orientar a avaliação:
- A junta está funcionando? O corte pode existir na superfície sem que a fissura de retração tenha se formado adequadamente sob ele.
- A fissura abre e fecha com o tempo? Medir sua abertura em diferentes períodos ajuda a descobrir se ela continua ativa.
- Há diferença de altura ou movimento sob carga? Se um lado da fissura se desloca mais do que o outro, pode haver problema de transferência de carga ou de apoio da placa.
Quando necessário, equipamentos de inspeção podem ajudar a localizar as barras. Também pode ser útil fazer verificações localizadas, desde que sejam planejadas para não danificar os dispositivos existentes.
Essa análise evita que o reparo seja escolhido apenas pela aparência da fissura.
4. Como prevenir fissuras paralelas às juntas?
A prevenção começa no projeto e depende também dos cuidados durante a execução. Os principais pontos são:
- Planejar o formato das placas e a posição das juntas, evitando restrições desnecessárias à retração;
- Definir e conferir a profundidade dos cortes, seguindo o projeto e o sistema construtivo;
- Executar a serragem no momento adequado, com equipe e equipamentos preparados;
- Conferir o alinhamento das barras ou placas de transferência antes e durante a concretagem;
- Garantir o deslizamento previsto nas juntas, com tratamento de desaderência, luvas e folgas quando especificados;
- Controlar a retração e realizar a cura corretamente, reduzindo o risco de fissuras nas primeiras idades.
O desafio é garantir duas condições ao mesmo tempo: a junta precisa permitir a movimentação horizontal prevista e transferir adequadamente as cargas verticais entre as placas (Rodrigues; Botacini; Gasparetto, 2006; The Concrete Society, 2013).
5. Como reparar fissuras paralelas às juntas?
A solução depende da causa, da movimentação da fissura e das condições do piso. Apenas preencher a abertura pode não resolver o problema, principalmente quando a junta continua travada.
5.1. Fissuras pequenas e sem danos importantes
Quando não há diferença significativa de altura entre as faces, quebra nas bordas ou perda de desempenho, pode ser suficiente limpar e selar a fissura.
O produto deve ser escolhido de acordo com a movimentação esperada e com as condições de uso do piso, como tráfego, umidade e exposição a produtos químicos. Se a fissura continua abrindo e fechando, um preenchimento rígido pode não ser adequado.
5.2. Fissuras que passam a funcionar como juntas
Às vezes, a fissura passa a permitir a movimentação que deveria ocorrer na junta original. Nesses casos, pode ser necessário tratá-la como uma nova junta, com material adequado para permitir movimentação e proteger as bordas.
Antes disso, é importante verificar a faixa de concreto que ficou entre a fissura e a junta existente. Se essa faixa for muito estreita e receber tráfego de rodas rígidas, poderá quebrar ou apresentar desgaste nas bordas.
5.3. Fissuras com falha na transferência de carga
Se os dois lados da fissura apresentam deslocamentos verticais diferentes durante a passagem de equipamentos, a selagem isolada pode não ser suficiente.
Uma alternativa, dependendo da situação, é instalar dispositivos adicionais de transferência de carga. A Federal Highway Administration apresenta técnicas de instalação posterior de barras para recuperar essa função em pavimentos de concreto. Em pisos industriais, a solução precisa ser avaliada considerando a espessura, as armaduras existentes, os equipamentos que circulam e a posição das juntas (Federal Highway Administration, 2007).
5.4. Fissuras com danos mais graves
Quando há concreto esmagado, quebras extensas, diferenças importantes de altura ou perda de apoio, o reparo pode precisar incluir a retirada e a recomposição de uma parte da placa, além da correção da base, quando necessária.
O importante é corrigir também a causa do problema. Se a junta continuar travada ou a base não oferecer apoio adequado, a fissura poderá voltar a aparecer mesmo depois do reparo.
6. Conclusão
As fissuras paralelas às juntas podem ser um sinal de que o piso não está se movimentando como deveria. Cortes rasos ou feitos tarde demais, barras de transferência travadas e dispositivos desalinhados estão entre as causas que precisam ser investigadas. Retração, formato das placas e problemas na base também podem contribuir.
Grande parte desses problemas pode ser evitada com um bom projeto de juntas e cuidados na execução, principalmente durante a serragem e a instalação dos dispositivos de transferência de carga.
Quando a fissura já existe, é importante descobrir se ela continua se movimentando e se afeta o desempenho do piso. O objetivo do reparo não deve ser apenas esconder a fissura, mas garantir que as placas e as juntas funcionem corretamente.
Referências bibliográficas
AMERICAN CONCRETE INSTITUTE. ACI 360R-10: guide to design of slabs-on-ground. Farmington Hills: American Concrete Institute, 2010.
FEDERAL HIGHWAY ADMINISTRATION. Best practices for dowel placement tolerances. Washington, DC: FHWA, 2007. Publicação FHWA-IF-07-021. Disponível em: https://www.fhwa.dot.gov/pavement/pub_details.cfm?id=482. Acesso em: 14 out. 2026.
RODRIGUES, Públio Penna Firme; BOTACINI, Silvia Maria; GASPARETTO, Wagner Edson. Manual Gerdau de pisos industriais. São Paulo: Pini, 2006.
THE CONCRETE SOCIETY. Concrete industrial ground floors: a guide to design and construction. 4. ed. Camberley: The Concrete Society, 2013. Technical Report 34.